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Marte: nuvem de até 1.800 km sobre o Arsia Mons pode se formar sem poeira

Um estudo na Nature Geoscience sugere que a nuvem de até 1.800 km sobre o vulcão Arsia Mons, em Marte, se forma por nucleação homogênea, com o gelo surgindo direto do vapor d’água, sem poeira. A conclusão vem de simulações, não de medição direta.

Nuvem alongada sobre o vulcão Arsia Mons, em Marte
Arsia Mons, Marte — a nuvem de gelo pode se esticar por até 1.800 km.
Resumo: um estudo publicado na Nature Geoscience (edição de outubro de 2026) propõe que a gigantesca nuvem que se estica por até 1.800 km a partir do vulcão Arsia Mons, em Marte, se forma por nucleação homogênea: o vapor d’água viraria gelo sem grãos de poeira como ponto de partida. É um processo que, segundo os autores, nunca foi observado na atmosfera de um planeta. A conclusão vem de simulações, não de medição direta.

A nuvem que se repete toda manhã

O Arsia Mons é um vulcão de cerca de 20 km de altura. Sobre ele, e a favor do vento, surge nas manhãs da primavera e do verão do hemisfério sul marciano a chamada Arsia Mons Elongated Cloud (AMEC), uma nuvem de gelo de água que pode chegar a 1.800 km de comprimento, embora costume ter menos de 200 km de largura, segundo o editorial da própria revista. Ela se forma, se alonga e desaparece em um único dia marciano, e volta a aparecer por vários meses.

A sonda Mars Express, da Agência Espacial Europeia (ESA), acompanha o fenômeno há anos. Em 2021, a ESA já divulgava que a nuvem era do tipo orográfico: o ar úmido sobe pela encosta do vulcão, esfria e condensa, como mostrou o Xataka ao repercutir o comunicado. O novo trabalho mostra que essa explicação, sozinha, não bastava.

O que o estudo propõe

O artigo, assinado por Jorge Hernández-Bernal e colegas (o Sci.News o vincula à Sorbonne Université e ao CNRS), se chama “Homogeneous ice nucleation from water vapour suggested by elongated clouds on Mars” e saiu no volume 19 da revista (DOI 10.1038/s41561-026-02089-9). Segundo o Sci.News, os modelos anteriores não reproduziam o que a Mars Express registrou; as simulações da equipe só reproduzem a nuvem quando a nucleação homogênea entra na conta.

PontoO que a fonte informa
Comprimento máximoAté 1.800 km (Nature Geoscience e Sci.News)
Largura habitualMenos de 200 km (editorial da Nature Geoscience)
Altura do vulcãoCerca de 20 km
Mecanismo propostoGelo se forma direto do vapor, sem poeira (nucleação homogênea)
Condição exigidaUmidade relativa muito acima do normal; o Sci.News fala em mais de 100.000 vezes os níveis típicos da Terra
Como se chegou láSimulações de ondas de vento sobre o vulcão, comparadas com imagens da Mars Express
⚠ Hipótese apoiada em modelo
O mecanismo não foi medido em Marte. O editorial da revista chama a explicação de a mais convincente até agora, e o Sci.News registra que a condição extrema de umidade é uma inferência das simulações. Outros grupos ainda podem testar ou contestar o resultado. Os números de umidade e de queda de temperatura (cerca de 30 graus em uns 10 minutos, segundo o Sci.News) não conferimos no artigo original, que não abrimos.

Por que isso importa

Na Terra, nuvens quase sempre dependem de partículas, como poeira ou sal, para o gelo se formar. A nucleação homogênea é conhecida na teoria e já foi proposta para camadas altas da atmosfera da Terra e de Vênus, mas segue sem confirmação. O editorial sugere que o caso marciano pode ajudar a entender o processo por aqui, o que continua sendo uma possibilidade, não um resultado.

Para o leitor do MundoWatch, o assunto é ciência pura, mas dialoga com um tema que acompanhamos: sensores e modelos que traduzem o clima em informação. Veja, por exemplo, o recorde de calor na Terra em agosto como o mês mais quente, ou como relógios com bússola e altímetro ajudam em trilhas, e outra frente científica em ímãs supercondutores para fusão.

Perguntas rápidas

Qual o tamanho da nuvem? Até 1.800 km. Onde fica? A favor do vento do vulcão Arsia Mons, em Marte. Qual a novidade? Gelo que se forma sem poeira, segundo simulações. Foi observado diretamente? Não, é inferência de modelo. Onde saiu? Nature Geoscience, outubro de 2026.